Ar.Co – Se vais Comunicar, fá-lo com Arte

Ar.Co – Se vais Comunicar, fá-lo com Arte

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Ar.Co –  E no princípio?

É curioso constatar que uma escola de arte tão experimental e vanguardista quanto o Ar.Co tenha surgido durante o Estado Novo. O Ar.Co (Centro de Arte e Comunicação Visual) apareceu pelas mãos de Graça e Manuel Costa Cabral em 1973. Tinha o objectivo de preencher uma enorme lacuna no ensino das artes no Portugal daqueles tempos. Nas ofertas formativas estavam incluídas as artesanias. Este facto deve ter contribuído para que o Regime não tenha posto logo o pé em cima do projecto. No entanto a relação com a PIDE não foi propriamente pacífica. Havia atritos relacionados com a visita de professores franceses capazes de levantar ondas. É do conhecimento geral que o lápis azul da PIDE era grosseiro e tosco. Muitas vezes deixou passar mensagens disfarçadas sob inúmeras camadas de tinta. Um dos grandes objectivos da escola era ensinar técnicas artísticas para comunicar. Graça era antifascista e mostrou aos seus alunos que ser artista era muito diferente de compactuar com o poder.

Ar.Co –  Uma casa “nova”

O Ar.Co funcionou durante mais de 40 anos num palacete do século XVIII na Rua de Santiago em Lisboa. Na década de 80, a instituição ocupou mais três espaços e expandiu-se para a Quinta de São Miguel em Almada. Não deixa de ser irónico que a sede se tenha mudado em 2017 para o antigo Mercado de Xabregas. Trata-se de um edifício com uma arquitectura que marcou as obras do Estado Novo. Isto só mostra que passado e futuro não são entidades independentes mas parecem misteriosamente ligadas entre si.

Assim, em 2013 foi assinado com a Câmara Municipal de Lisboa um protocolo de cedência do espaço. O Ar.Co, com vários apoios, foi responsável pela reabilitação que durou 4 anos. O projecto foi assinado pelo arquitecto João Santa Rita. Procurou manter-se a estrutura original e aproveitar ao máximo as potencialidades que o mercado já tinha em si. A sala de desenho ficou virada a norte por ser esta luz que proporciona a ausência de sombra. Para criar divisões mais pequenas usou-se o pladur que para além de parede também constitui um suporte para afixar trabalhos. Mesas e bancadas de trabalho são as originais e já têm mais de 40 anos de artistas em cima. Renovaram-se sim canalizações, instalações eléctricas e rede. Manteve-se a estrutura fragmentada em 3 edifícios. No primeiro funciona a Direcção, a Secretaria, a Sala de Conferências e a Cafetaria. O segundo edifício é reservado às oficinas de ilustração/ BD, pintura, desenho e joalharia. No terceiro edifício funciona o Laboratório de Fotografia e o Departamento de Cinema/Imagem em movimento.

Quando o Ar.Co se mudou para Xabregas, esta ainda era uma zona pouco interessante de Lisboa. Da mistura de alfândega, armazéns e fábricas abandonadas, casas velhas e ambiente de bairro social parecia não se esperar nada. No entanto, a vinda do Ar.Co contribuiu para o despoletar do ambiente de produtividade artística que aqui foi surgindo. Actualmente na zona encontra-se uma fábrica de cerveja artesanal, ateliers, galerias e incubadoras de empresas criativas.

Ar.Co –  Oferta formativa

O Ar.Co é uma associação cultural, sem fins lucrativos e de utilidade pública. Vive essencialmente de propinas, donativos de privados e alguns apoios do Estado. Esta sua organização permite-lhe manter a sua independência a nível de conteúdos programáticos. Estes são desenhados pelos docentes de acordo com a sua experiência, necessidades do mercado de trabalho e evolução das técnicas. A própria sociedade também tem aqui um papel através das questões que vai levantando.

Nos primeiros anos o Ar.Co dedicava-se às artes ditas mais puras – escultura, pintura, desenho e cerâmica. A evolução das artes visuais implicou investimentos e a criação de cursos de fotografia, ilustração, cinema e design gráfico. O Ar.Co promove uma atmosfera multidisciplinar de aprendizagem em que há contaminação de áreas. Seja qual for o programa escolhido, a História da Arte e o Desenho estarão sempre presentes. Pretende-se promover o desenvolvimento de pensamento crítico e personificação de trabalho através de uma componente mais artística. Também por essa razão o ensino é experimental. Não há faltas nem notas. Se o aluno ali está é porque quer aprender e com esse processo criar portfolio. No seu sucesso tem tanta responsabilidade quanto o professor.

Para um melhor acompanhamento as turmas não têm mais de 14 pessoas. A faixa etária dos alunos varia muito começando nos 18 anos. O Ar.Co tem em consideração que há quem já tenha a sua profissão e veja na arte uma terapia.

A oferta formativa inclui os Cursos Completos de profissionalização e a Formação Pontual para quem quer explorar as suas capacidades. Os Cursos Avançados e de Projecto Individual são de especialização/amadurecimento e os Cursos de Verão para sensibilizar os mais novos.

Ar.Co –  A apropriação do espaço

É curioso ver a apropriação do espaço pelos alunos. É possível encontrar copos com pincéis esquecidos nos parapeitos, trabalhos espalhados pelas bancadas e misteriosos bilhetes nas janelas.

 

Photo Credits – Página de Facebook do Ar.Co

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Catarina Reis

Sou uma pessoa recatada que gosta de se ver sozinha e anónima no meio da multidão. Os pormenores de mínima importância pela maioria desprezados são, para mim, o cerne de toda a questão.

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