As andorinhas que bailam nas chaminés das avós

As andorinhas que bailam nas chaminés das avós

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A andorinha

A andorinha é uma pequena ave, entre 13 e 21cm de comprimento, que pode viver até 8 anos. É resistente, tem uma óptima orientação, é ágil no seu vôo e gosta de locais quentes.

É por gostar de locais quentes que no Outono, quando as temperaturas baixam, parte para outros locais, chegando a percorrer até 20 mil kms.
Quando as temperaturas voltam a subir, a andorinha regressa ao exacto local onde nasceu. Nessa altura podemos observar os bandos a bailar no céu português. Pouco depois iniciam a construção dos seus ninhos nas varandas, janelas e chaminés brancas, fazendo-nos acreditar que são um cunho da casa tradicional portuguesa!

Bordallo Pinheiro

Raphael Bordallo Pinheiro imortalizou a andorinha numa das suas famosas figuras de cerâmica. Nascido em Lisboa no seio de uma família ligada às leis e às artes, Bordallo Pinheiro escolhe o meio artístico, primeiro como caricaturista e depois como ceramista, exaltando sempre o lado satírico da vida.  Atento ao que caracterizava a alma portuguesa, cria um universo em que retrata a sociedade do séc XIX do povo à família real; todos nós conhecemos o Zé Povinho, a Maria da Paciência ou o Padre. Criou também azulejos, painéis, potes, centros de mesa, jarros, bustos, fontes lavatórios, bilhas, pratos, perfumadores, jarrões e representações da fauna e flora portuguesa, muitas delas com formas agigantadas.

Foi graças a ele que, quando chegava o Outono e as andorinhas partiam, se matavam as saudades colocando uma representação da mesma em cerâmica na fachada da casa.

Em Portugal podemos observar 5 espécies: a andorinha-dos-beirais, a andorinha-das-chaminés, espécies que encontramos nas zonas urbanas, a andorinha-dáurica, a andorinha-das-barreiras e a andorinha-das-rochas, espécies das zonas naturais. Sendo que esta última vive o ano todo no nosso território.

Junto com um dos seus doze irmãos, Bordallo Pinheiro adquiriu uma fábrica nas Caldas da Rainha, pois era ali que estava o melhor barro, a melhor terra e os melhores artesãos. Assim, em 1884, nasce a Fábrica de Faiança Artística.

Devido à grande qualidade artística e criativa, as peças de Bordallo ganharam rapidamente fama internacional e chegaram ao Brasil, Espanha, França e EUA. A  Fábrica viveu então tempos áureos.

O apoio de artistas contemporâneos

Após a sua morte, é o filho que toma a cargo a continuação da fábrica e mais tarde, depois de 1920, são os operários que a mantêm em funcionamento. Actualmente pertence à empresa Visabeira que pretende manter vivo tão importante património nacional, pois tempos houve em que estas peças foram consideradas artesanato de pouca relevância. O apoio de artistas contemporâneos, como a pintora Paula Rego ou a artista plástica Joana Vasconcelos, foi crucial para que houvesse interesse em manter a Fábrica em funcionamento.

As peças voltam a ser produzidas e são muito bem recebidas a nível nacional e internacional. Os moldes das figuras estavam extremamente bem preservados e prontos a ser utilizados. O molde mais antigo de uma andorinha data de 1891!

Uma andorinha que as avós e os netos adoram

Hoje abraçamos novamente a andorinha que “a avó tinha por cima da chaminé da cozinha”. Tiramo-la da caixa onde estava guardada e voltamos a dar-lhe vida. Porque esta pequena ave possui um único parceiro ao longo de toda a sua vida, é tida como símbolo da família, do amor, da fidelidade e da lealdade. Não há figura mais perfeita para decorar o lar. Mas por anunciar a Primavera é também em homenagem à ressurreição, fecundidade e renovação.

Estamos a começar um novo ano. Porque não celebrar estes valores?

Bom ano! Construam um bom ninho.

 

Photo Credits – Página Facebook Bordallo Pinheiro

About author

Cátia Garcia

Quando chegou o momento de escolher o curso superior que queria frequentar, escrevi, sem saber nada da realidade dessa profissão, Guia Intérprete Nacional. O curso conciliava tanta coisa pela qual sou apaixonada: história, línguas, arte, sociologia, etnografia e viajar. Por isso pensei que seria impossível não ir por esse caminho. Fui e desde 2001 que percorro Portugal de ponta a ponta mostrando o que é ser português. E, porque gosto de desafios e de conhecer os "outros", aventurei-me a trabalhar lá fora: no museu Guggenheim em NYC, na galeria Secession em Viena e na coordenação de grupos durante os Campeonatos do Mundo e da Europeu de Futebol. Mas... quanto mais viajo, mais gosto de Portugal. De há uns anos para cá o gosto de contar estórias sobre a cultura portuguesa começou a surgir também em forma de escrita e, é com grande entusiasmo que tenho contado as minhas aventuras em várias revistas (impressas e digitais) assim como no meu site A Teia da Guia. Já dancei ballet, toquei piano, escrevi uma curta metragem e criei uma colagem de arte urbana. Já fiz voluntariado, já percorri a famosa Route 66 e assentei pés na Nova Zelândia. Mas a maior viagem de todas comecei há 6 meses quando me tornei mãe da pequena Magalie. Espero que me acompanhem desse lado do Reveal Portugal.

Comments
  • Sara Garcia#1

    24 de Janeiro, 2018

    Adorei!! Que artigo tão bonito… obrigada!

    Responder
  • Beatriz Rodrigues#3

    24 de Janeiro, 2018

    Waooo! Adorei Cátia a simplicidade e a paixão com que escreve e transmite a informação e sem dúvida maravilhosa…. e é de esta forma como se consegue chegar aos clientes e ao leitor, neste caso. Obrigada por partilhar os seus conhecimentos e parabéns por esta nova aventura que com certeza tera muito sucesso 😗😗😗

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  • Cátia Garcia#4

    25 de Janeiro, 2018

    Olá Beatriz

    Que bom que é acordar e ler o este comentário.
    Muito obrigada pelas palavras e pelos desejos. Espero que continue aí desse lado a ler 😊

    Obrigada

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  • Fátima Garcia#5

    26 de Janeiro, 2018

    Muitos parabéns, adorei o artigo. Informações muito interessantes, curiosas e a escrita é comovente.
    Quero ler mais.
    Beijinhos.

    Responder
  • Celeste Albuquerque#6

    27 de Janeiro, 2018

    Lindo! Sabe bem ler estas coisas tão bonitas.
    Espero pelo próximo.

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