Parece ficção científica mas é tecnologia portuguesa

Parece ficção científica mas é tecnologia portuguesa

Artigo original 18 Agosto 2017 por: Diário de Notícias

Com a eletrónica transparente e do papel, duas grandes apostas, a equipa do CENIMAT, da Universidade Nova, está a tornar real o que há alguns anos pareceria ficção.

Sentados lado a lado, num gabinete do Centro de Investigação de Materiais (CENIMAT), no pólo da Caparica da Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade Nova, Elvira Florindo e Rodrigo Martins vão descrevendo, com a mesma naturalidade com que comentariam o calor que se faz sentir naquela tarde de Verão, uma série de inovações tecnológicas que há meia dúzia de anos teriam feito corar de inveja o mais criativo autor de ficção científica.

Circuitos eletrónicos transparentes, que permitem transformar uma janela ou a montra de uma loja num display onde é possível reproduzir vídeos e todo o tipo de informações. Embalagens de papel “inteligentes” que, interagindo com a tecnologia near field communication (comunicação por campo de proximidade), presente na maioria dos mais recentes telemóveis, podem dar informações sobre o estado de conservação de determinado produto, detetando inclusivamente sinais de deterioração ou a presença de bactérias. Ou então confirmar se o que se encontra no interior corresponde ao que de facto o cliente encomendou.

O curioso é que muito do que os dois cientistas descrevem – e que resulta do trabalho do laboratório em que são as duas principoais referências – já existe na realidade.

A eletrónica transparente, assume Elvira, foi a primeira a fazer o seu caminho até à indústria. “Não foi tão disruptiva em termos de aplicação como a eletrónica de papel”, explica. “Já há uma série de equipamentos , nomeadamente telemóveis e as novas televisões a Oled, que incorporam parte dessa tecnologia.”

A tecnologia permite, por exemplo, produzir semicondutores invisíveis, em vez dos tradicionais de silício, para controlar os pixels que dão a imagem. Uma solução que será utilizada de forma mais ampla nos displays da nova geração de telemóveis da Samsung – empresa com a qual o laboratório partilha várias patentes. Também a LG já investiu em conceitos do laboratório que poderão, a curto prazo, resultar em gadgets inovadores.

A eletrónica de papel valeu ao CENIMAT muito destaque na imprensa e inúmeros prémios nacionais e internacionais mas, em termos de aplicações industriais, ainda está numa fase mais atrasada. “Foi uma invenção e é uma área mais disruptiva porque não havia propriamente qualquer coisa [na indústria] para nós otimizarmos”, explica Elvira Fortunato.

McDonalds e Casa da Moeda

O certo, lembra Rodrigo Martins, é que começam a surgir grandes empresas interessadas. “Uma das aplicações que eu penso que é quase imediata – aliás a McDonalds pretende fazer isso e já nos contactou – é o sistema das embalagens, fazer o trecking. Quando se vai ao MC Donalds, entre 20% e 30% do que está no pacote e aquilo que você encomendou não corresponde, sobretudo no drive in) e nessa situação significa que é importante fazermos o tracking e saber o que está no pacote é exatamente aquilo que eu encomendei”.

As potencialidades da tecnologia para a produção de documentos de alta segurança também despertaram o interesse da Imprensa Nacional Casa da Moeda, com a qual o laboratório assinou dois grandes contratos. “Estamos a trabalhar, por exemplo, para o próximo passaporte. O passaporte português já é dos mais seguros do mundo e será ainda mais seguro com a nossa tecnologia incutida. A Chronopost é outra parceira em negociações, com interesse no tracking de encomendas postais.”

Mas mesmo com todo o interesse suscitado, o potencial da eletrónica de papel ainda mal começou a ser explorado. Entre os conceitos desenvolvidos ou em desenvolvimento no CENIMAT estão exames médicos de baixo custo e impacto ambiental nulo. Ou ainda o PaperE, cujo nome assumidamente inverte a tendência da migração do papel para as plataformas digitais: é um jornal descartável, numa única folha de papel, com um display e um botão que permite ir mudando as páginas. Se a ideia lhe recorda a célebre publicação lida pelos feiticeiros criados por J.K Rowling, acertou em cheio.

“Por vezes a ficção científica serve-nos de inspiração”, assume Elvira Fortunato. “Se o [filme] Minority Report influenciou a eletrónica transparente, o Harry Potter deu-nos algumas ideias para a eletrónica de papel.”

O que não é ficção científica – embora possa parecer – é o conjunto de componentes eletrónicas que os cientistas do laboratório já desenvolveram recorrendo a este material. Depois dos transístores de papel têm surgido outras inovações. Atualmente a equipa tem projetos em curso para a captação de energia solar, recorrendo para os “painéis” ao mesmo material utilizado no forro das embalagens da Tetra Pak. E está a testar uma bateria em papel que – em vez do caro e raro lítio – utilizará…sódio.

Atualmente, o laboratório acumula – por sua conta ou em parcerias com a indústria – um total de 45 patentes internacionais. Nove em cada dez euros aplicados nas suas atividades resultam de fontes não estatais e são obtidos de forma competitiva, através de provas de conceito para a indústria, outros serviços prestados – nomeadamente testes a produtos – e a captação de fundos internacionais. Só em bolsas do European Research Council, ultrapassaram os seis milhões de euros nos últimos anos.

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