A José Maria da Fonseca caiu com o Brasil, levantou-se com os EUA

A José Maria da Fonseca caiu com o Brasil, levantou-se com os EUA

Artigo original por: Público

A empresa vinícola José Maria da Fonseca é uma mistura de história e inovação. Tem adegas onde se guardam vinhos há quase 200 anos e um centro de vinificação moderno controlado por computadores. É aqui, garantem os seus responsáveis, que está um dos segredos da sua longevidade.

À porta da sala mais escondida da Adega dos Teares Velhos, onde são guardadas à chave as garrafas que estão reservadas apenas para ocasiões especiais, está emoldurada uma listagem dos anos de todas as colheitas realizadas. É uma lista longa de anos, a fazer jus à história de uma das mais antigas produtoras de vinho e de moscatel do país. Mas quatro anos destacam-se por terem um espaço em branco à frente: 1936, 1937, 1939 e 1940. São os anos em que a “casa quase foi ao chão”.

A casa é a José Maria da Fonseca. Criada em 1835 em Vila Nogueira de Azeitão, é actualmente uma das principais empresas vinícolas em Portugal. O seu fundador, o Sr. José Maria da Fonseca, como fazem questão de o chamar todos os seus descendentes, lançou em 1850 a marca Periquita e criou as bases para uma história de sucesso. No entanto, ao longo dos seus 182 anos de história, nem tudo foram sucessos e facilidades para a empresa.

O momento mais difícil, conta-nos António Soares Franco, o actual presidente e um dos membros da sexta geração de descendentes de José Maria da Fonseca, viveu-se nos anos 30 do século passado.

O mundo sofria o abalo da crise financeira iniciada em 1929 na Bolsa de Nova Iorque e um pouco por todo o mundo as economias estavam em recessão. Era o caso do Brasil, especialmente afectado pela queda dos preços das matérias-primas e pela decisão do presidente Getúlio Vargas de trancar as importações do país.

Isso foi importante para a José Maria da Fonseca porquê? António Soares Franco explica: “O meu avô (da quarta geração de descendentes do fundador) estava embeiçado pelo Brasil. A empresa nessa altura vendia 90% dos seus produtos para lá, eram 100 mil caixas de 12 garrafas por ano, mais de um milhão de garrafas por ano. E o que aconteceu é que esta casa quase foi ao chão.”

Mas conseguiu recuperar. A empresa foi forçada a vender algum do seu património, nomeadamente os terrenos que nas décadas anteriores tinha comprado para fazer face ao aumento da procura proveniente do Brasil, como as vinhas da região de Colares. Durante algum tempo, viveu-se essencialmente da venda de stocks que tinham sido acumulados. E as uvas eram vendidas como fruta de mesa, não transformadas em vinho. É isso que explica os espaços vazios na longa lista de colheitas.

Só com a Segunda Guerra Mundial começou a haver alguns balões de oxigénio. A estratégia nessa altura passou por lançar diversas marcas por um aumento da produção de vinhos de rotação rápida. Foi assim que, por exemplo, apareceu o primeiro rosé, o Faísca, lançado na feira popular em 1942, um ano antes do concorrente Mateus.

Mas foi uma outra aposta audaz que ajudou a concretizar a recuperação definitiva da empresa. Henry Behar, um americano de origem arménia, visitou, ainda antes do final da guerra, a José Maria da Fonseca para mostrar a sua visão: o mercado americano de vinhos era, até aí, apenas constituído pelas elites, mas, com tantos soldados americanos na Europa, os hábitos de consumo iam ter de mudar.

A empresa aceitou o desafio de Behar e lançou em parceria mais uma marca que acabou por fazer história: a Lancers. “Era um vinho rosé, mais doce e com mais gás para se adaptar ao gosto americano”, conta António Sousa Franco. A partir de 1944, com o sucesso da Lancers nos Estados Unidos, a sorte da empresa virou, com vendas que chegaram ao milhão de caixas no final da década de 70.

As marcas do fundador

A história da queda no Brasil e da recuperação nos Estados Unidos tem muitos dos ingredientes que têm ajudado a garantir a longevidade da empresa: adaptação rápida a novas realidades, capacidade para recuar e recentrar o negócio, inovação na produção e nas marcas.

O actual presidente diz que isso tudo “faz parte do ADN da empresa” e que a sua origem pode-se encontrar mesmo no fundador, José Maria da Fonseca, que era “um perfeccionista e um inovador”. “Era também um marketeer antes sequer de existir o marketing como conceito. Os vinhos vendiam-se a granel, em barricas. Mas comprou uma máquina de engarrafamento em França e começou a oferecer o vinho aos clientes em garrafa”, afirma António Sousa Franco.

Outra inovação: “Começou a cultivar as vinhas alinhadas e isso permitiu que pudessem ser lavradas com uma mula e um arado, o que tornou a produção mais eficiente”.

Estas características mantiveram-se ao longo das décadas seguintes? O presidente da empresa garante que sim e dá exemplos. “Criámos o primeiro vinho rosa em Portugal. Mais recentemente lançámos o primeiro vinho sem álcool, para chegarmos a mercados diferentes. Nem todas as marcas tiveram sucesso é verdade. Nós esperamos sempre que elas singrem, mas por vezes acontece e o importante é sabermos lidar com o insucesso e compensar com os sucessos.”

Outro sinal da aposta na inovação está no centro de vinificação criado em 1999. Os vinhos e os moscatéis continuam a ser guardados e envelhecidos nas barricas de madeira, mas é a poucos quilómetros de distância, num ambiente em que os computadores dominam, que tudo é preparado. Avanços tecnológicos que também permitem produzir mais de 30 marcas de vinhos de mesa, generosos e licorosos, com o recurso a pouco mais de 200 trabalhadores.

Estratégia para o futuro

Não foi só com a Grande Depressão que a longevidade da empresa esteve ameaçada. Com o 25 de Abril de 1974, registou-se em Portugal um aperto muito forte da procura e no acesso a financiamento. Mais uma vez a estratégia foi recuar, para depois avançar outra vez “Decidimos cortar um braço. Vendemos o negócio dos rosés e o Lancers, para reagruparmos adegas e comprarmos vinhas.” Foi durante os anos 80 que expandiu os terrenos em que cultiva a sua própria vinha, comprando em várias regiões do país, como o Alentejo e o Douro. Neste momento, conta com 650 hectares de vinhas próprias, que são a origem de 60% do vinho produzido.

Actualmente, problemas como os que aconteceram com o Brasil ou a seguir a 1974 são menos prováveis. Os responsáveis da empresa têm feito um esforço para diversificar ao máximo a origem dos clientes. Cerca de 80% da produção destina-se à exportação e aí é dirigida a mais de 70 países, incluindo a China, onde o crescimento é actualmente de três dígitos.

Não se pense contudo que os riscos desapareceram. António Sousa Franco assume que a recessão económica dos últimos anos constituiu também um desafio. “O momento actual não é fácil. Durante a crise, registou-se uma grande quebra. E agora há pessoas a vender vinho abaixo do preço de custo”, lamenta-se. Por isso, a estratégia agora passa por recentrar o negócio e reduzir o endividamento.

Fonte Original

Your email address will not be published. Required fields are marked O teu endereço de email não vai ser publicado. Campos obrigatórios estão marcados.*