Como o Porto seduziu o Natixis

Como o Porto seduziu o Natixis

Artigo original 25 Março 2018 por: Expresso

Em França “estes talentos não existem”, diz o presidente do banco, que investiu €23,5 milhões

Na sua primeira visita, este mês, ao centro de competência digital que o banco Natixis, a que preside, instalou no Porto, Laurent Mignon ficou impressionado com a “energia, disponibilidade e orgulho” da comunidade de 300 elementos recrutada em pouco mais de seis meses. A meta é terminar 2019 com mais de 600 profissionais.

Porque escolheu o banco francês a cidade do Porto para instalar o seu centro de tecnologia de informação (TI)? A decisão resultou de um somatório de critérios, entre os quais se incluiu o custo da operação. Mas se o fator custo fosse decisivo “o centro teria ido para outro local”, responde Laurent Mignon. O centro dará suporte informático aos 38 mercados em que o banco opera e ocupa dois pisos do edifício Oporto Center, impulsionando uma nova centralidade na Baixa do Porto.

Explicar em França a deslocalização deste centro é fácil. “Dizemos que em França não conseguimos recrutar estes talentos, eles não existem. A pressão é muito grande, nunca teríamos conseguido contratar recursos familiarizados com TI em seis meses”, diz o presidente do Natixis, o braço para a banca empresarial, investimento e gestão de ativos do conglomerado BPCE-Banque Populaire & Caisse d’Epargne.

A relevância e simbolismo deste investimento decorre de ser uma estreia. É a primeira vez que “construímos de raiz um centro desta natureza para apoiar, de forma integrada, todas as linhas de negócios”. A iniciativa “é muito relevante pelos benefícios e criação de valor que arrasta e por ser uma parte integrante do grupo”, libertando o Natixis do recurso a serviços de outsourcing. Entre Portugal e França a poupança da operação pode ser substancial, mas esse ganho é acessório. É um “efeito secundário que não interessa — é sempre mais caro recorrer a terceiros”. “Para nós, o fundamental é desenvolver a nossa estrutura de suporte e dispor de equipas próprias, porque estamos a falar do negócio nuclear do banco”.

IMOBILIÁRIO E CUSTOS LABORAIS
E deve Portugal estar agradecido por este investimento? “Não, nem pensar. Não estamos a fazer nenhum favor e temos muito orgulho em instalar aqui este centro de excelência”, responde o gestor. O contrato celebrado com o Estado português acentua o “carácter exportador” do projeto, fala de um investimento de €23,5 milhões e de vendas acumuladas até 2026 de €317 milhões (€240 milhões de valor acrescentado bruto).

A opção Porto surgiu de modo natural após um amplo escrutínio. O Natixis lançou há dois anos um processo de pesquisa global, identificando possíveis localizações. Em França, na Europa e fora da Europa. A Índia foi um dos países que figuraram na lista. A primeira condição era contar com pessoal especializado e adequado à vocação do centro.

No final, pesando as vantagens e inconvenientes dos candidatos apurados, o Porto surgiu como “a solução perfeita”: gente qualificada, com conhecimento de línguas, mentalidade internacional, ambiente dinâmico, boas universidades. O banco valorizou ainda “o fuso horário e proximidade à sede, porque boa parte do trabalho será em articulação com Paris”.

Os custos laborais e o preço do imobiliário no Porto fizeram parte da equação, mas não foram decisivos. “Se fosse apenas uma questão de custos, provavelmente não teríamos investido aqui. Este é um investimento de longo prazo, estamos a criar um centro Natixis para ficar e gerar vantagens e rentabilidade para o banco”, diz Laurent Mignon.

O Natixis detém uma participação “histórica e estável” de 11% no Banco Finantia, mas nunca teve uma operação financeira em Portugal. É apenas uma questão de portefólio. A prioridade atual “é investir em mercados em que o banco já tem poder”. Laurent Mignon admite incluir Portugal no programa de expansão, numa lógica de reforço da operação na Europa. “A economia portuguesa está forte, não há razões para não investirmos aqui”, alega. O banco tem negócios com grandes empresas portuguesas no exterior e faz gestão de ativos para alguns clientes (€400 milhões numa carteira sob gestão de €830 mil milhões).

Quando lhe falam de Portugal, Laurent Mignon recorda um “ambiente de otimismo, uma economia favorável ao investimento, orientada para a internacionalização”. Portugal numa frase? “Um país com perspetivas brilhantes”.

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