Co-living: quando partilhar uma casa com estranhos passa a fazer todo o sentido

Co-living: quando partilhar uma casa com estranhos passa a fazer todo o sentido

Artigo original 15 Abril 2018 por: Diário de Notícias

São jovens profissionais, trabalhadores expatriados ou estudantes que em vez de procurarem colegas para partilhar uma casa em zonas apetecíveis, onde a oferta é pouca e os preços muito altos, recorrem a empresas que já oferecem prédios ou vivendas com áreas comuns, e um preço baixo com tudo incluído. É o futuro do setor imobiliário? Há quem diga que sim. Em Lisboa, este conceito começa agora a desenvolver-se

Quartos com várias camas, por vezes beliches, cozinhas totalmente equipadas, internet de alta velocidade, ginásio, eventos semanais e contratos mensais sem obrigações. É este o conceito de co-living, um novo segmento do mercado residencial que está a explodir em várias cidades do mundo. A próxima, segundo projetam consultoras imobiliárias, pode ser Lisboa. “Os principais ocupantes deste tipo de produto são trabalhadores expatriados, estudantes ou jovens profissionais”, explica ao DN Marta Esteves Costa, diretora de research da Cushman & Wakefield. Em vez de terem de procurar colegas para partilhar uma casa em zonas muito apetecíveis, onde a oferta é baixa e as rendas muito caras, deixam tudo nas mãos das empresas que gerem estes empreendimentos. Os apartamentos estão mobilados, o preço mensal é mais acessível do que uma renda média e inclui todas as despesas, como Wi-Fi e eletricidade. Em Londres há o The Collective, em Berlim, o Quarters, em Nova Iorque, o WeLive, em Los Angeles, o Aviato Club. A ideia é levar as vantagens do coworking para o alojamento. É a economia de partilha a entrar dentro de casa.

“O conceito de co-living é hoje muito discutido no mercado imobiliário como uma das grandes tendências do futuro do segmento residencial”, confirma Marta Esteves Costa, referindo que os investidores estão de olhos postos neste segmento devido ao grande potencial que apresenta. O motivo, diz a responsável, é a “profunda transformação urbanística que tantas capitais europeias estão a experimentar e que resulta na escassez de produto residencial para arrendamento.”

Isso é visível na capital portuguesa, onde o valor médio de arrendamento já é o dobro do resto do país e a oferta de casas para arrendamento de média ou longa duração é baixa. Marta Esteves Costa sublinha que um dos motivos para o potencial do co-living é que tanto Lisboa e como o Porto estão a atrair jovens profissionais liberais e são interessantes para a captação de centros de fornecimento de serviços partilhados e BPO (business process outsourcing). “Em Lisboa já se assistem a vários de-senvolvimentos neste sentido, seja por parte de promotores locais seja internacionais”, refere a responsável.

De facto, a Outsite tem no Cais do Sodré um empreendimento com 30 camas e a Nomad House Lisbon tem um espaço de co-living e coworking perto da Estação de Santa Apolónia. A JLL revela, adicionalmente, que já há mais dois projetos em desenvolvimento. “Acreditamos que o nosso país tem um grande potencial para promover esta tendência”, diz ao DN a consultora imobiliária. “Trata–se de um mercado muito citadino e cosmopolita, direcionado para quem procura um segundo teto depois da universidade, profissionais deslocados ou independentes e empreendedores, até aos 40 anos aproximadamente.” A JLL destaca que o programa Startup Visa está a trazer muitos estrangeiros que procuram este tipo de soluções e que a tendência é para que o mercado se de-senvolva “apenas nas grandes cidades como Lisboa, Porto ou Coimbra, onde estão estas comunidades”.

Maior empresa de co-living quer Lisboa

A alemã Medici Living, que está neste mercado há cinco anos, é uma das que estão a fazer prospeção em Lisboa. “Temos uma equipa à procura de boas localizações”, diz ao DN Bosko Todorovic, responsável global de marketing do grupo sediado em Berlim. “Acabámos de começar a falar de Lisboa, está na nossa lista de expansão europeia.” É possível que tal investimento venha a acontecer já neste ano, indica. “Estamos sempre interessados em conversar com especialistas imobiliários para desenvolver estes projetos.”

A Medici Living é, neste momento, a maior empresa do setor, com 1700 camas espalhadas pela Europa e Estados Unidos. O grupo tem dois modelos distintos: o Living e o Quarters, que diferem no tipo de alvo. O Living está a funcionar na Alemanha e na Holanda e é direcionado para jovens estudantes e estagiários, nessa fase instável em que precisam de rendas muito baixas. A outra oferta, que foi criada no ano passado, é a Quarters e dirige-se a inquilinos mais velhos, noutra fase da vida profissional. “São os chamados nómadas digitais, que têm uma mala e um portátil e trabalham de qualquer lado”, diz Bosko.

Neste caso, o grupo controla sempre prédios inteiros e não apenas uma casa. Tem dois edifícios em Nova Iorque, onde os preços mensais começam nos 1750 dólares (bem abaixo do que é normal em Manhattan), está em Chicago a partir dos 999 dólares e também em Berlim, a partir de 500 euros. “Há sempre espaços comuns, terraços, ginásios, cozinha e área de alimentação, onde fazemos festas semanais e juntamos as pessoas”, explica Bosko. “O “co” é muito importante: é a parte da comunidade.”

Isto é aquilo que distingue o co-living de algo que é comum em todo o lado mas com outro nome – partilhar casa para poupar nas despesas. “Tentamos juntar pessoas com interesses similares, dá mais oportunidades do que apenas um teto”, explica o executivo. Já aconteceu inquilinos conhecerem-se em eventos semanais e começarem empresas juntos. “Dá acesso imediato a pessoas semelhantes e potenciais amigos numa nova cidade”, complementa.

As vantagens em relação a um contrato normal é que o inquilino não tem de assinar por longos períodos de tempo, não tem de fazer prova de rendimentos fixos e não precisa de adquirir mobílias – algo interessante se tiver mudado para a cidade recentemente ou planear mudar-se para entrar num novo emprego. No caso dos nómadas digitais, por exemplo profissionais que têm um site, um blogue, trabalham de forma remota ou estão a começar um novo negócio, a flexibilidade é importante. Nalguns casos, os empreendimentos de co-living até fornecem itens de despensa básicos e espaços completos de coworking.

O modelo da Califórnia

As duas maiores áreas metropolitanas da Califórnia enfrentam um problema grave de rendas elevadas e pouca disponibilidade de oferta. Em São Francisco e Los Angeles encontrar um T0 por menos de mil dólares é quase impossível, e as rendas podem ir até aos cinco ou seis mil por mês. Isto afeta mais do que as populações locais pela importância que têm no mundo: uma é o epicentro da inovação tecnológica, Silicon Valley, a outra a capital mundial do entretenimento, Hollywood. Há um grande movimento de expatriados, incluindo portugueses, que chegam a estas cidades para trabalhar ou perseguir um sonho. O primeiro obstáculo é encontrar um sítio para ficar.

A situação justifica que a Califórnia seja, a par de Nova Iorque, um dos principais mercados de teste para novas marcas de co-living. Há várias empresas a competir neste espaço, como é o caso da Open Door e Aviato Club, e novos empreendimentos a serem construídos de raiz, como o Treehouse Co-Living em Hollywood. Os preços são imbatíveis: entre 800 e mil dólares por mês.

“Quando se arranja um colega de casa no Craigslist, não se faz ideia de quem seja”, argumenta Emily Wilson, diretora de operações da Aviato Club. “Com o modelo de negócio que temos, entrevistamos, verificamos o cadastro, garantimos que as pessoas se integrarão bem na comunidade. Não é apenas pessoas a viver juntas”, continua, para dissipar a ideia de que isto é chamar por outro nome algo que já existe há muito tempo.

A empresa foi fundada há dois anos por Viktor Nikonets, depois de se mudar de Varsóvia para São Francisco e ter dificuldades em encontrar alojamento seguro e acessível onde pudesse conhecer pessoas e trabalhar nos seus projetos. “Vimos que havia um problema e uma necessidade”, explica Emily. A responsável atribui o sucesso do modelo de negócio da Aviato Club a uma confluência de fatores que vão além do preço, embora este seja o problema número um. “As pessoas gostam de viajar e trabalhar no seu computador onde quer que estejam. Gostam de experimentar locais diferentes, tentar novas oportunidades de trabalho”, diz. “É a mentalidade millennial.” Além de casa, os espaços incluem coworking e mentoria adaptada à comunidade – em Burbank, por exemplo, há atores, realizadores, produtores e músicos; em São Francisco, há programadores.

O Aviato Club tem rendas mensais entre os 800 e os 925 dólares por mês, conforme a localização, com cinco espaços entre Los Angeles e São Francisco. Para 2019, estão a planear um novo projeto em Silicon Valley, virado para a comunidade tecnológica.

A ideia é que este modelo de alojamento seja algo de transição, onde as pessoas ficam durante algum tempo, mas Emily nota que há quem esteja com eles há dois anos. “Gostam do aspeto de comunidade”, refere. É que há um terceiro fator, além do preço e da flexibilidade, a ditar o crescimento do co-living. “As grandes cidades têm muita população mas as pessoas são solitárias”, diz. “É o fator solidão.”

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