Livraria Lello, a nossa Miss Mundo

Livraria Lello, a nossa Miss Mundo

Reveal Writers

13 de Janeiro de 1906. Meio-dia. Uma multidão aglomera-se à frente do número 144 da Rua das Carmelitas, no Porto. E não, não há jogo de futebol na Invicta. É a inauguração da Livraria Lello e no interior já se reúnem muitas personalidades da vida cultural e política portuguesa. Dela se fala em todos os jornais portugueses e não só. A imprensa brasileira também noticia a abertura do espaço.

Um século depois continuam a ser muitos aqueles que fazem fila à porta da livraria, local obrigatório para quem visita o Porto. O jornal inglês The Guardian considerou-a a terceira livraria mais bela do mundo, classificação atribuída também pelo Lonely Planet, que a descreveu como “uma pérola de arte nova”. A revista Travel + Leisure colocou-a no topo da lista das 15 livrarias mundiais mais cool, assim como a revista Time e a CNN, que destacou-a como a livraria mais bonita do mundo. Por cá, foi classificada como Monumento de Interesse Público, um “ex-libris do Porto e um autêntico santuário das artes editoriais e livreiras”.

Como se todas estas referências não bastassem, há ainda uma outra que atrai muitos curiosos. O que pode ligar a Livraria Lello ao universo de Harry Potter? A autora da saga, J. K. Rowling, viveu no Porto durante quase dois anos. Há quem diga que se inspirou nesta livraria centenária para criar a imaginária livraria de Hogwarts e que a Grande Escadaria de Hogwarts nasceu a partir da inesquecível escadaria da Lello. Verdade ou não, certo é que a Livraria Lello é, por si só, cenário de fantasia!

Livraria ou cenário de filme?

Comecemos pela fachada deste edifício que resulta de um projecto do engenheiro Francisco Xavier Esteves. De estilo Arte Nova, com apontamentos neogóticos, a entrada divide-se numa porta central, ladeada por duas montras. Em cima há uma janela tripla e, de cada lado, duas figuras pintadas, da autoria de José Bielman, que simbolizam, uma a Arte e outra a Ciência. No topo, um rendilhado surpreendente.

Avançamos para o interior, onde encontramos um conjunto de baixos-relevos que representam os fundadores da livraria, José Lello e António Lello. Ao longo da sala são muitos os bustos de alguns dos mais importantes escritores portugueses: Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco, Antero de Quental, Tomás Ribeiro, Teófilo Braga e Guerra Junqueiro.

Mas isto é ainda o início e é difícil escolher do que se gosta mais: se da onírica escadaria, se do vitral policromático.

É impossível não apreciar o imponente tecto da livraria. Da autoria do arquitecto holandês Gerardus Samuel van Krieken, o vitral é uma estrutura em vidro com oito metros de comprimento e 3,5 metros de largura, que projecta a luz natural. Nele destaca-se a insígnia “Decus in labore” (dignidade no trabalho), enlaçada no monograma dos irmãos Lello.

Qualquer outro pormenor da livraria tem dificuldade em competir com a famosa escadaria carmim. De madeira talhada, no centro da loja, ela é a rainha da Livraria Lello. Assim que a avistamos é como se um magnetismo nos levasse até ela. Sente-se o desejo de subir cada degrau, percorrendo a escadaria em câmara lenta. Encanta quem entra na livraria e compõe um cenário inigualável, um ambiente que tem a capacidade de transportar-nos um século atrás. Pelo menos.

E o mais importante: os livros

Na Livraria Lello os detalhes são tantos que não são compatíveis com pressas. E, claro, há muitas estantes de madeira cheias de livros que vão até ao tecto. São cerca de 120 mil exemplares, de todos os estilos literários e para todos os gostos. Um paraíso literário.

Há que sublinhar que a livraria mais famosa do Porto não é apenas um espaço turístico. A sua função original e principal é vender livros. Por assim ser, em 2015, a Lello começou a cobrar entradas aos visitantes, quatro euros dedutíveis na compra de livros. Turismo e literatura. Isto é serviço público, senhores!

Photo Credits: Manuel Varzim

Sobre autor

Sónia Castro

“As raparigas do Norte (…) têm o ar de quem pertence a si própria. Andam de mãos nas ancas. Olham de frente. Pensam em tudo e dizem tudo o que pensam. Confiam, mas não dão confiança. (…) As mulheres do Norte deveriam mandar neste país. Têm o ar de que sabem o que estão a fazer.” É Miguel Esteves Cardoso quem o diz e quem sou eu para contrariar? Nascida e criada no Norte, na minha alma cabe também Lisboa, cidade que escolhi abraçar. Tenho o canudo em Comunicação Social e mais umas quantas formações. Tenho fome de aprender e de executar. O dia-a- dia é passado no trabalho. Mas depois é hora de fazer teatro, dançar, cantarolar, viajar, ler e tanto mais. Eterna menina. Ouvinte. Escriba. Coerente e com contradições. Anseio por ir e regressar. Sonho com a invenção da máquina do tempo.

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