O barco moliceiro, ontem e hoje

O barco moliceiro, ontem e hoje

Reveal Writers

Quando se pensa na cidade de Aveiro…

Há uma imagem que imediatamente nos assalta a mente: os ovos moles. Perfeitamente compreensível! Mas tentações gastronómicas à parte, Aveiro tem um outro ex-libris, que não passa despercebido até ao mais distraído: o barco moliceiro. Os garridos moliceiros que hoje se vêem, repletos de visitantes, a percorrer os canais da cidade, nem sempre foram barcos turísticos. Façamos, então, uma viagem no tempo.

A origem documentada dos barcos moliceiros remonta ao primeiro quartel do séc. XVIII. Eram uma ferramenta de trabalho, mais precisamente agrícola, uma vez que com eles se apanhava e transportava o moliço, nome vulgar que abrange, sem distinção de espécies, a vegetação submersa da ria de Aveiro. Este era estendido em eiras para secar ao sol e servia de fertilizante às terras arenosas dos agricultores da região. Eram estes agricultores que, originalmente, faziam a apanha do moliço. Mais tarde, consequência da expansão agrícola que exigia uma maior produtividade, foi criada a profissão dos moliceiros.

Houve tempos em que os moliceiros se contavam aos milhares, entre Mira e Ovar, apanhando as algas que serviam de adubo à lavoura e, pontualmente, transportando mercadoria, gado e pessoas. Percorriam um ecossistema muito particular, a laguna, que era ao mesmo tempo rio e mar, terra e água.

Porém, a progressiva substituição do moliço por adubos químicos fez decair a actividade ao longo do século XIX. Esgotada a sua função económica, quase desapareceu na década de 70, mas veio a renascer pouco depois como barco-museu, destinado a passeios turísticos. Mas já lá iremos. 

Photo Credits: Museu da Cidade | Imagoteca – Câmara Municipal de Aveiro

Embarcação vaidosa

Construído com madeira de pinho, tem 15 metros de comprimento, fundo plano, uma vela de lona e navega facilmente com pouca altura de água. O barco moliceiro é esguio e colorido e é a sua decoração que salta à vista, com painéis faustosos, coloridos e comunicativos. Sim, estes quadros náuticos contam estórias! Nos seus tempos áureos, contextualizavam a conjuntura histórica da época e levavam a mensagem ria dentro, de margem em margem e de povo em povo.

Os temas vão do popular ao satírico, do religioso ao brejeiro, com dizeres de carácter único e cheios de graça, que representam bem a gente da ria, alegre, atrevida e trabalhadora. Os quatro painéis decorados, à popa e à proa, a estibordo e a bombordo, são ornamentados com pinturas alegóricas e motivos figurativos e florais. Nenhum desenho se repete, sendo que as quatro policromias são sempre diferentes entre si. Estas pinturas revelam preferências e habilidades pessoais, onde se percebem, por vezes, técnicas específicas, outras vezes, as criações são despojadas de conhecimento formal, mas ganham em força emocional e profunda sinceridade do autor. Ambos os casos resultam em autênticas raridades.

Photo Credits: Museu da Cidade | Imagoteca – Câmara Municipal de Aveiro

A bordo do moliceiro

Para se observar de perto a riqueza pictórica e temática das decorações dos moliceiros nada como um passeio pelas águas tranquilas da Ria de Aveiro. Esta embarcação secular desempenha hoje novas funções e há quem compare os passeios turísticos de moliceiro aos passeios de gôndola, em Veneza. Conhecer a embarcação por dentro, senti-la nas manobras, contemplar as suas linhas harmoniosas provoca sensações únicas.

Embarcar num moliceiro e percorrer os canais da Ria é deixar-se levar por estradas de água prateada que conduzem o visitante pela cidade. Os passeios de moliceiro, parte da tradição local, passam pelas salinas de Aveiro, pelas casas dos pescadores, pelos armazéns de peixe, pelos edifícios históricos de Arte Nova, pelas pontes e pelo encanto de uma cidade que José Saramago descreveu como um “corpo vivo que liga a terra ao mar como um enorme coração”.

 

Photo Credits: Museu da Cidade | Imagoteca – Câmara Municipal de AveiroNeticola Sny

Sobre autor

Sónia Castro

“As raparigas do Norte (…) têm o ar de quem pertence a si própria. Andam de mãos nas ancas. Olham de frente. Pensam em tudo e dizem tudo o que pensam. Confiam, mas não dão confiança. (…) As mulheres do Norte deveriam mandar neste país. Têm o ar de que sabem o que estão a fazer.” É Miguel Esteves Cardoso quem o diz e quem sou eu para contrariar? Nascida e criada no Norte, na minha alma cabe também Lisboa, cidade que escolhi abraçar. Tenho o canudo em Comunicação Social e mais umas quantas formações. Tenho fome de aprender e de executar. O dia-a- dia é passado no trabalho. Mas depois é hora de fazer teatro, dançar, cantarolar, viajar, ler e tanto mais. Eterna menina. Ouvinte. Escriba. Coerente e com contradições. Anseio por ir e regressar. Sonho com a invenção da máquina do tempo.

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