Caralhota não é palavrão

Caralhota não é palavrão

Reveal Writers

As gentes de Almeirim pronunciam o nome do pão sem qualquer entoação especial, que não seja a da fome ou da gula. Mas os forasteiros, esses, não conseguem pedir uma Caralhota sem ruborizar, esboçar um sorriso, soltar uma gargalhada ou, simplesmente apontar com o dedo, evitando proferir tal palavra!

Tem um nome curioso que faz lembrar tudo menos aquilo que é. Almeirim é o único lugar do país onde se pode usar a palavra Caralhota, que parece que é, mas não é um palavrão. Este é um pão muito saboroso, de miolo suave, e com uma textura de forno de lenha que é de comer e chorar por mais. É um pão encorpado que satisfaz. Sacia quem trabalha! É que, em Almeirim, a tradição das Caralhotas vem de longe e surge ligada às necessidades do povo que, por ter poucos recursos, cozia o pão em casa para alimentar toda a família.

 

Segredo da Caralhota

Farinha, água, sal e fermento. A massa fica a levedar de véspera e o segredo está na forma como se bate a massa: num alguidar de barro e com força de braços, até a massa fazer bolhas. O forno deve manter-se quente e, para isso, é atirada farinha para avivar as chamas. Há ainda padeiras que imitam os seus antepassados, virando costas ao forno e fazendo o sinal da cruz, enquanto proferem trocadilhos como “Que Deus te acrescente e que cresças tanto como as abas do meu cu”. E a marotice continua associada às Caralhotas, mas é tudo por uma boa causa. Para que o pão saia do forno o mais saboroso possível. E resulta!

 

Nome de baptismo

A génese do nome Caralhota vem de tempos remotos e prova que aqui não há segundos sentidos, para desapontamento de alguns. Reza a história que uma velhinha estava a cozer pão e a filha raspou o alguidar, fazendo uma bolinha com os restos. Quando a mãe lhe perguntou o que estava a fazer, ela respondeu: “Uma caralhota, mãe!”. É que caralhota é o nome dado, em Almeirim, aos borbotos das camisolas. Quando se limpa o alguidar com a farinha, nas bordas ficam presos restos de massa que parecem esses borbotos da lã.

Independentemente do nome com que foi baptizada, a Caralhota é um pitéu guloso que justifica uma passagem por Almeirim, terra do melão e da sopa da pedra. E, claro, da Caralhota.

 

Photo Credits: Câmara Municipal de Almeirim

Sobre autor

Sónia Castro

“As raparigas do Norte (…) têm o ar de quem pertence a si própria. Andam de mãos nas ancas. Olham de frente. Pensam em tudo e dizem tudo o que pensam. Confiam, mas não dão confiança. (…) As mulheres do Norte deveriam mandar neste país. Têm o ar de que sabem o que estão a fazer.” É Miguel Esteves Cardoso quem o diz e quem sou eu para contrariar? Nascida e criada no Norte, na minha alma cabe também Lisboa, cidade que escolhi abraçar. Tenho o canudo em Comunicação Social e mais umas quantas formações. Tenho fome de aprender e de executar. O dia-a- dia é passado no trabalho. Mas depois é hora de fazer teatro, dançar, cantarolar, viajar, ler e tanto mais. Eterna menina. Ouvinte. Escriba. Coerente e com contradições. Anseio por ir e regressar. Sonho com a invenção da máquina do tempo.

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