O carnaval de rua retorna a Lisboa

O carnaval de rua retorna a Lisboa

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Como já está dando para notar, brasileiros formam a maior comunidade de imigrantes em Portugal. Segundo dados do SEF (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras), o número de brasileiros superou em 2007 o número de cabo verdianos, os segundos a ocupar o ranking, e a população veio crescendo até 2011, quando começou a cair. Em 2017, acredita-se que este número voltou a subir. Ainda não temos dados oficiais, mas quem esteve em Lisboa em fevereiro de 2017 e de novo em 2018 pôde ver um fenômeno indicador desta suspeita: o carnaval de rua do Brasil “invadiu” as terras lusitanas.

Começou tímido. No ano passado, três brasileiras tomaram a iniciativa de criar o Colombina Clandestina como um projeto para o curso de Comunicação e Tendências da Universidade de Lisboa. O bloco desfilou nas ruas de Alfama em um cortejo frio, com poucos músicos e cerca de 300 foliões saudosos (segundo estimativa das organizadoras). De lá pra cá, a comunidade aumentou tanto que este ano foram pelo menos seis – o CorTejo abriu a sexta-feira de carnaval com poucos mas bons, seguido pelo Orquestra Batucaria e o próprio Colombina Clandestina no sábado, dessa vez com aproximadamente 1000 foliões.

Domingo foi dia de festa no Bairro Alto com o Bué Tolo, que saiu da Ribeira das Naus e subiu a ladeira, Baque do Tejo, com muito maracatu, e o Tupinambloco, que fechou a noite na Casa do Brasil. A temperatura não devia passar dos 12 graus, mas quem foi garante que o verão carioca chegou até Lisboa. Isso porque ao mesmo tempo que o Bué Tolo se reuniu na beira do rio Tejo num dia chuvoso, o Boi Tolo, um dos blocos mais tradicionais do Rio de Janeiro e famoso por ser “eterno” (esse ano dizem por aí que foram 14 horas ininterruptas de batuque), se concentrava para o seu emblemático desfile que vai do centro da cidade até… onde cada um aguentar.

A festa da carne

Existem muitas teorias sobre a origem do carnaval. Diz-se que era uma festa popular relacionada com a fertilidade da primavera, o fim do inverno mais rigoroso, a comemoração do retorno da luz. Isso explica a alegria e o colorido característicos. Também há a explicação religiosa – a Igreja se apropriou da festa, possibilitando que os fiéis se permitissem os prazeres carnais mais intensamente como uma despedida para a entrada na quarentena. Coincidência ou não, alguns dos países com tradição mais cristã da Europa, Portugal e Itália, são também os que tem a maior tradição carnavalesca. Hoje, o carnaval de Veneza é famoso pelos bailes de máscaras, tendo se tornado uma festa praticamente de elite, e o carnaval popular de rua de Portugal praticamente acabou, restando apenas os desfiles e bailes de clubes.

Mas nem sempre foi assim. O carnaval de rua em Portugal já foi bem expressivo, com o nome de Entrudo, uma festa essencialmente urbana, onde a população de rua em geral brincava de arremessar líquidos e farelos uns aos outros. O Entrudo foi levado para o Brasil pelos portugueses no século XVI. Lá, continuou sendo uma festa de cunho popular, em que todos podiam participar, independente da sua cor ou classe social. Não parou de crescer até chegar no que é hoje, uma das festividades mais conhecidas do planeta, mas sem perder a essência que é ocupar a rua, se pintar ou fantasiar, extravasar.

Um pedacinho do Brasil em Lisboa

Em 2018, o carnaval fez o percurso contrario. Depois de diversas proibições e de ter perdido força em Portugal, os brasileiros tomaram as ruas do centro de Lisboa e prometem não parar por aí. Os ensaios já estão correndo a todo vapor e para o próximo ano a folia só tende a aumentar. Se tudo der certo, no ano que vem Lisboa poderá ser um destino para os brasileiros vivendo em toda parte da Europa e também para os europeus que sonham com o carnaval do Brasil, mas que não podem atravessar o oceano para ver de perto.

Seja como for, Portugal – e o mundo – só tem a ganhar com a expansão dessa expressão popular. Pra quem olha de fora, pode parecer que é só festa, mas o carnaval é muito mais do que isso: “é uma visão do mundo onde todas as normas são questionadas, daí tudo o que é marginalizado socialmente busca uma libertação catártica, vencendo simbolicamente a hierarquia, a ordem, a opressão e o sagrado. Em suma, caindo-se as barreiras, gera-se uma comunicação livre e polifônica, entre pessoas e grupos, todos contagiados pela alegria pelo riso e pela ênfase ao grotesco” (Bakhtin, citado por Hilam Araújo na introdução do livro “A História do Carnaval”).

Sobre autor

Lívia Travassos

Brasileira do Rio de Janeiro, vive em Lisboa desde 2017. Formada em cinema, trabalhou com audiovisual por 7 anos, até que resolveu fazer o caminho inverso das caravelas dos "descobrimentos" e veio descobrir Portugal. Atualmente cursando o mestrado de antropologia visual na FCSH e cozinheira nas horas não-vagas.

Comentários
  • Laura Pelosi#1

    Abril 4, 2018

    Parabéns pelo texto! Bom demais ver que o nosso carnaval de rua chegou às ruas de Lisboa com a mesma energia e “calor”. Saudades carnaval e Saudades de você .

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